Uso a palavra “caipira” como designação para aqueles que habitam as cidades do campo, do interior, sem qualquer conotação ofensiva. Minha família é toda caipira, proveniente de cidades pequenas do interior, de Santa Catarina e do Paraná. Claro que a definição envolve uma diferença cultura em relação aos moradores das grandes cidades. Mas nada que venha a ser positivo ou negativo. Apenas diferente.
Em 1996, o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, afirmou que os brasileiros eram todos caipiras. Foi massacrado pela infeliz declaração. Acredito, porém, que apesar de ter se expressado mal, foi mal compreendido. Não se tratava de uma crítica, apenas caracterização. A metropolização do Brasil vem de algumas décadas apenas e isso faz com que ainda guardemos o estilo “caipira” de levar a vida.
Politicagens e antropologias deixadas de lado, fiquei contente com a classificação de dois times caipiras para as semifinais do Paulistão, sobretudo pelo Guaratinguetá, que fechou a primeira fase com a liderança do campeonato, depois de ser apontado por muitos como um cavalo paraguaio, ou caipira, inclusive por mim. Merecidas classificações, para um torneio disputado em pontos corridos.
Surpresas como essa são sempre positivas, e os estaduais são terreno fundamental para que elas aconteçam. É isso que mantém o futebol vivo pelo interior do país, essa perspectiva de duelar com os grandes e conseguir sucesso, de repente cavar uma vaga na Copa do Brasil e participar de uma competição nacional. Os estaduais são importantíssimos à sobrevivência do futebol brasileiro, para que continuemos produzindo bons jogadores em larga escala.
Mais interessante ainda foi o fato de o cruzamento das semifinais ter proporcionado um duelo à caipira. O jogo entre Ponte Preta e Guará terá um charme especial. É como uma “final do interior”, que ainda vai garantir a presença da caipirada na decisão do estadual, contra Palmeiras ou São Paulo.
Só não concordo que a final seja disputada com ida e volta no Morumbi, como já está se desenhando por aí. Eu defenderia a primeira partida da decisão no interior mesmo que os finalistas fossem dois times da capital. Os jogos no interior sempre levam bom público ao estádio e dão oportunidade a torcedores que dificilmente podem se deslocar à capital para acompanhar seus times. Só o campeonato regional dá essa oportunidade.
Não dá para aceitar que uma faz finais não seja realizado em Campinas ou Guaratinguetá. Não se pode privar a população dessas duas cidades de acompanhar seus times numa final de Campeonato Paulista, uma oportunidade rara, admita-se. O estadual serve pra alimentar os times pequenos e jogar duas vezes na capital vai contra esse pensamento.
Ainda, que por uma questão de grandeza, o Morumbi fique com o segundo jogo, o interior tem que ter sua festa na decisão do Paulista, e no caso deste ano por merecimento, não por piedade, caridade ou qualquer outro tipo de interesse.
Registro aqui mais uma vez os meus parabéns à Ponte Preta e ao Guará, por deixarem de fora da fase semifinal grandes clubes como Santos e Corinthians, que dormiram no ponto, talvez imaginando que pudessem garantir classificação no momento que bem entendessem. Quando acordaram para a realidade, já era tarde. Palmas também pra São Paulo e Palmeiras, que levaram o torneio a sério desde início.
Quem foi, foi. Quem não foi, fica. Admirando ou não a riqueza do nosso interior.