As imagens da contusão do atacante Eduardo da Silva, do Arsenal, foram realmente chocantes. Causaram revolta generalizada e imediata contra o zagueiro do Birmingham, Martin Taylor. Maldoso, criminoso e assassino foram alguns dos adjetivos atribuídos ao agressor, que chegou a ser ameaçado de morte nos dias seguintes ao incidente. Não é pra tanto.
Pode parecer muita ingenuidade, mas não concordo com quase nada que foi dito contra Taylor. Não acredito que possa existir tanta maldade num ser humano. Não acredito que tenha partido para o lance com intenção de machucar o brasileiro, muito menos de partir a perna dele em três pedaços. Com menos de 10 minutos de jogo, não havia provocação, não havia revide, não havia motivo. O próprio Eduardo perdoou o agressor.
Taylor não foi criminoso, foi grosseiro. Numa tentativa de roubar a bola ou parar o lance, usou uma força desproporcional, com falta de técnica e de sensibilidade. O movimento de Eduardo, com a perna presa ao chão no momento do choque, e o ângulo de encontro entre os dois corpos também foram desfavoráveis. Uma somatória de fatores que resultaram em fatalidade.
É falta de categoria. Funciona mais ou menos assim: o defensor não tem o tempo da bola e vai pra cima do atacante. Até executar o movimento, a bola já não está mais onde estava, e tudo que o imbecil do zagueiro encontra é o corpo do adversário. Falta.
Escrevo por conhecimento de causa. Sempre joguei atrás, nunca tive muita habilidade e já cometi muitas faltas assim. Chega a ser vergonhoso para o zagueiro, que estava crente que acertaria a bola e acaba errando o alvo.
Existe um exemplo que pode parecer tolo, mas ilustra bem o meu ponto de vista. Lembro-me de um fim de tarde na praia, com uma ex-namorada e a família dela. Que tal brincar de bobinho? Rodinha feita, bola pra lá, bola pra cá e lá vem a então namorada me marcar, sem noção alguma de futebol. Nunca tomei tanta bica na canela. Eu não acredito, até hoje, que a intenção dela fosse me machucar. Total falta de categoria é o que explica.
O Taylor é como minha ex-namorada. Putz, que comparação... vou trocar de parágrafo, traçando um outro paralelo, ok?
Na Fórmula 1, só pode dirigir o piloto que tem a chamada super-licença. Claro, não é qualquer um que está habilitado a dirigir um carro daqueles. Além da velocidade e de toda complexidade, há uma série de situações de risco que demandam uma condição psicológica favorável.
No caso do Taylor, é como se ele não tivesse uma licença para jogar futebol. Faltou noção do perigo. Foi como se ele jogasse o carro pra cima do oponente.
Punição
No dia do jogo, o técnico do Arsenal, Arsene Wenger, declarou que Taylor deveria ser banido do futebol, opinião que ganhou apoio de vários jornalistas e comentaristas, mesmo que em conversas informais. Houve também quem defendesse que o zagueiro não voltasse até a completa recuperação do Eduardo.
Por toda minha explanação nos parágrafos anteriores, não concordo. Impedir o cara de exercer a profissão dele pelo resto da vida é muito pesado. Por mais que a imagem tenha chocado, vários fatores influíram no resultado final da contusão, entre eles um tremendo infortúnio.
Uma suspensão pelo tempo de recuperação do atleta machucado também é complexa demais. Pensando de uma maneira simplista, funcionaria da seguinte forma: só pisa no gramado quando o Eduardo disputar uma partida oficial. Fácil? Nem tanto. O tempo de tratamento é totalmente relativo e envolve fatores como: a condição física do lesionado, dedicação no tratamento, suporte do clube, etc. Quem determina quando a contusão foi recuperada ou não?
Cheguei a brincar que esse tipo de determinação poderia ser perigosa para o caso de atletas que se machucam com certa facilidade, como o Pedrinho. Ninguém mais iria querer marcá-lo. Já pensou? Num lance mais leve, o cara se quebra todo e lá se vai a carreira do zagueiro embora.
Quem tem de determinar a suspensão é a federação, em seu tribunal desportivo, o órgão competente para tanto. Ok, às vezes nem tão competente. A FA impôs uma punição com duração de três partidas, duas além da suspensão automática. Muito pouco. Pode não ter sido por maldade, mas a grosseria foi tremenda. A ‘licença’ do Taylor para jogar futebol deveria ser cassada por pelo menos dois meses.
Daria pra discutir ainda a decisão da TV inglesa em não repetir o lance por outros ângulos, mas aí já é demais com o leitor. Fica para a próxima.
Quem foi, foi. Quem não foi, fica. Tomando cuidado pra não errar a bola.