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Memorial

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22/12/2005 às 17:15:16

O acesso do Figueirense à Série A

Bernardo Haas

Abimael (nº 18) comemora o gol do acesso
Foto Cristiano Andujar/FFC
A ascensão do Figueirense à Série A do Campeonato Brasileiro foi marcada por uma grande polêmica no futebol brasileiro. Mentiras e confusões levaram o caso ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). Uma novela na vida real que durou mais de seis meses.

Mas a confusão não foi capaz de tirar o brilho da bela campanha da equipe catarinense na segunda divisão.

Era um sábado chuvoso na capital de Santa Catarina em 22 de dezembro de 2001. Mobilizada, a torcida do Figueirense lotou o Estádio Orlando Scarpelli para empurrar o time rumo à Série A - 22.530 compareceram ao espetáculo.

O adversário era o Caxias, tradicional rival gaúcho, e só a vitória levava o Furacão do Estreito à elite do futebol brasileiro.

A partida começou truncada, com muita chuva. Em 10 minutos, o Figueirense, do técnico Vágner Benazzi, já havia perdido duas boas chances de marcar.

O Caxias, que precisava de um empate para garantir o acesso, apelava para a violência. Aos 35 minutos do primeiro tempo, o zagueiro Emerson fez falta violenta no atacante Genílson e foi expulso pelo árbitro Alfredo dos Santos Loebling.

A situação do time gaúcho parecia se complicar, até que sete minutos depois o zagueiro alvinegro Pedro Paulo deu uma voadora no meia Gil Baiano e também foi para o chuveiro mais cedo.

A partir daí eram dez contra dez, o que facilitou a vida do Figueirense, que encontrou mais espaços no campo adversário e conseguiu criar mais oportunidades.

No final do primeiro tempo, o atacante Gilson Batata marcou para o Figueira, mas o gol foi anulado pela arbitragem, que alegou impedimento. Os jogadores se revoltaram contra Loebling, que, na confusão, expulsou o goleiro reserva Márcio Angonese.

Antes do início da segunda etapa, o técnico Benazzi trocou o volante China pelo zagueiro Fransérgio, para resguardar o setor defensivo, que estava com um jogador a menos, e dar mais liberdade para o ofensivo.

Na etapa final o Figueira partiu pra cima do Caxias, mas a bola teimava em não entrar. Os atacantes Genílson e Gilson Batata não estavam em seus melhores dias. Só mesmo um jogador iluminado para abrir o placar.

E veio do banco de reservas este jogador. O atacante Abimael entrou no lugar de Gilson Batata aos 15 minutos, momentos antes de uma falta próxima à lateral direita do campo de ataque para o Figueirense.

O especialista em bola parada, Marcelinho, cobrou e Abimael, de costas para o gol, tocou de cabeça para marcar. Cruzamento perfeito e o atacante iluminado, o “talismã alvinegro”, fazia o gol do acesso, para delírio da torcida alvinegra – Abimael havia marcado o gol de empate no último jogo de forma idêntica, contra o rival Avaí, na Ressacada.

A torcida comemorava, mas também roia as unhas, afinal, um gol dos gaúchos naquele momento poderia acabar com o sonho da Série A.

O clima era de festa e tensão nos minutos finais da partida. Aos 46 minutos e 50 segundos – faltando apenas 1min10s para o encerramento do jogo -, em uma cobrança lateral para o Figueirense, o juiz Alfredo dos Santos Loebling movimentou os braços autorizando o arremesso.

A torcida alvinegra não se conteve, acreditando que o jogo havia terminado, e invadiu o gramado. Cerca de 300 torcedores comemoravam o acesso antes mesmo do apito final.

Tumulto nas entradas dos dois vestiários. Jogadores do Caxias corriam para o vestiário dos visitantes, enquanto torcedores abraçavam e beijavam seus jogadores. Alguns até retiravam as redes das traves.

Após a torcida ser retirada do gramado, o árbitro, protegido por policiais, aguardou apenas dois minutos no campo para saber se haveria condições de continuar à partida, mas decretou o encerramento do jogo.

Ficha técnica: Figueirense 1 x 0 Caxias

Local: Estádio Orlando Scarpelli, em Florianópolis.
Data: sábado, 22/12/2001
Árbitro: Alfredo dos Santos Loebling (SP)
Gol: Abimael (Figueirense) aos 16 minutos do segundo tempo .
Cartões Amarelos: Genílson, Márcio Goiano, Simplício, Léo Mineiro, Marcelinho (Figueirense); Luciano, Jairo Santos, Maurício, Gil Baiano (Caxias).
Cartões Vermelhos: Pedro Paulo, Márcio Angonese (Figueirense); Emerson (Caxias).

Figueirense: César; Simplício, Márcio Goiano, Pedro Paulo e Vanin; China (Fransérgio), William (Marcelinho), Fernandes e Léo Mineiro; Gilson Batata (Abimael) e Genílson. Técnico Vagner Benazzi.

Caxias: Sadi; Emerson, Jairo Santos, Felipe e Luciano (Fabiano); Cléber Gaúcho, Gil Baiano, Wanderlei e Léo; Délmer (Luís Carlos) e Fábio Araujo (Israel). Técnico Ernesto Guedes

Polêmica no tribunal

Alguns dias depois da partida em que o Figueirense venceu por 1 a 0, a súmula tão aguardada pelos dirigentes dos dois clubes foi divulgada. O árbitro paulista relatou que o jogo já havia sido encerrado antes da invasão da torcida.

Homologada a súmula, o Figueirense estava na Série A do Campeonato Brasileiro. Mas o Caxias não se contentou com o relato de Loebeling e ameaçou entrar com um protesto judicial.

Temendo que a súmula da partida fosse impugnada devido aos esforços dos dirigentes da equipe da Serra Gaúcha, o Figueirense protocolou uma queixa contra o Caxias no Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). O advogado do Alvinegro, João Batista Baby, queria que o caso do “cai-cai” fosse julgado primeiro.

O chamado “cai-cai” foi promovido pelo clube gaúcho em uma partida válida pelo mesmo quadrangular final que levou o Figueira à Série A.

No jogo contra o Avaí, na Ressacada, com três jogadores expulsos no primeiro tempo, o Caxias simulou a lesão de dois atletas na abertura do segundo tempo e, com menos de sete jogadores, ficou sem o número mínimo exigido pela regra.

O árbitro encerrou o jogo com a vitória da equipe de Florianópolis por apenas 1 a 0.

Árbitro confessa mentira

O tribunal de justiça ainda teria muito trabalho pela frente. Em janeiro de 2002, o árbitro Alfredo dos Santos Loebeling confessou que foi forçado a mentir no relato da súmula da partida.

Segundo o juiz, o presidente da Comissão de Árbitros da CBF, Armando Marques, havia o forçado a relatar que a invasão dos torcedores ao campo teria ocorrido após o término da partida.

Isso complicou a situação do Figueirense. Desta forma o pedido de impugnação da súmula do jogo feito pelo Caxias poderia ser acatado. Havia também a possibilidade de acontecer uma nova partida entre as equipes.

Julgamento

O Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) havia marcado o julgamento da súmula para o dia 19 de março. O Figueirense estava indiciado no artigo 299, parágrafo único, do Código Brasileiro Disciplinar de Futebol (CBDF).

O artigo dizia que "o infrator (o Figueirense, no caso), impediu o prosseguimento ou deu causa à suspensão da partida". A pena poderia chegar a multa de R$ 200, perda de pontos, do mando de campo e parte da renda.

Os dirigentes alvinegros queriam o adiamento deste julgamento, alegando não haver tempo hábil para planejar sua defesa. Mas o STJD não atendeu o pedido do clube catarinense e julgou o caso no dia 19.

O temido julgamento terminou com vitória do Figueirense. Por três votos a um, os auditores do tribunal consideraram improcedente o pedido de impugnação da partida impetrado pelo Caxias.

Os dirigentes do clube gaúcho não se conformaram com a decisão do STJD e entraram com um pedido de novo julgamento na primeira instância da justiça desportiva.

Derrota no pleno

Em sessão plena do STJD, o Figueirense foi derrotado por 6 votos a 2. Desta maneira o Caxias ganhava a vaga do clube de Santa Catarina na Série A.

A direção catarinense não poupou esforços para levar o clube de volta à elite do futebol brasileiro. O advogado Paulo Goyaz, que havia defendido o Gama em 2000 e conquistado a permanência do clube do Distrito Federal na primeira divisão, foi contratado pelo Figueirense para devolver ao clube a vaga que lhe foi tirada no tribunal.

O próprio governo de Santa Catarina estava disposto a ajudar o Figueira no caso.

Definitivamente, o Figueirense está na Série A

Seis meses depois da partida final no Campeonato Brasileiro da Série B o STJD confirmou a vaga do Figueirense na Série A.

O tribunal acatou os argumentos do pedido de revisão de pena, voltando atrás da decisão preliminar de primeira instância e validou o gol da vitória do time alvinegro sobre o Caxias, de acordo com normas da FIFA, que proibia a anulação de um gol validado em súmula.

Era o fim de uma novela polêmica. O Figueirense, definitivamente, estava na elite do futebol brasileiro.

A torcida comemorava na cidade e os dirigentes estavam aliviados. Ninguém mais poderia tirar a vaga conquistada no campo.

Confira os jogos do Figueirense na Série B 2001


Turno
12/08 - Desportiva/ES 1 x 0 Figueirense
19/08 - Figueirense 3 x 1 Caxias/RS
22/08 - Figueirense 2 x 1 Americano/RJ
26/08 - Bragantino/SP 2 x 0 Figueirense
29/08 - XV Piracicaba/SP 2 x 1 Figueirense
02/09 - Figueirense 3 x 0 Malutrom/PR
09/09 - Figueirense 2 x 0 Avaí/SC
12/09 - Figueirense 4 x 3 Joinville/SC
15/09 - Vila Nova/GO 1 x 2 Figueirense
19/09 - Londrina/PR 1 x 2 Figueirense
23/09 - Figueirense 5 x 1 Serra/ES
26/09 - Figueirense 0 x 1 União São João/SP
01/10 - Criciúma/SC 2 x 1 Figueirense

Returno
04/10 - Figueirense 5 x 1 Desportiva/ES
11/10 - Caxias/RS 2 x 1 Figueirense
14/10 - Americano/RJ 3 x 0 Figueirense
17/10 - Figueirense 1 x 0 Bragantino/SP
21/10 - Figueirense 4 x 1 XV Piracicaba/SP
24/10 - Malutrom/PR 2 x 2 Figueirense
28/10 - Avaí/SC 1 x 1 Figueirense
02/11 - Joinville/SC 2 x 1 Figueirense
08/11 - Figueirense 3 x 1 Vila Nova/GO
11/11 - Figueirense 2 x 1 Londrina/PR
15/11 - Serra/ES 3 x 1 Figueirense
18/11 - União São João/SP 2 x 1 Figueirense
24/11 - Figueirense 3 x 3 Criciúma/SC

Quartas-de-final

Jogo de ida
27/11 - Náutico/PE 2 x 1 Figueirense

Jogo de volta
30/11 - Figueirense 2 x 1 Náutico/PE

Quadrangular final

Turno
04/12 - Caxias 0 x 0 Figueirense
07/12 - Figueirense 2 x 0 Avaí
11/12 - Figueirense 3 x 3 Paysandu

Returno
14/12 - Paysandu 3 x 0 Figueirense
18/12 - Avaí 2 x 2 Figueirense
22/11 - Figueirense 1 x 0 Caxias



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